Eu, professora, me confesso…[1]
Eu, professora com 50 anos de idade e no 29.º ano de serviço, me confesso “transportada” repentinamente para um tempo e um contexto que não são os meus.
Um tempo, algures entre um passado, que felizmente já não vivi como docente (o de ditadura), e um futuro ainda muito confuso, em que tudo parece acontecer a um ritmo alucinante e com trajectórias pautadas pela irregularidade e imprevisibilidade.
Um contexto, em que as condições materiais e espaciais escolares são as menos favoráveis de toda a minha carreira (apesar do tão falado “choque tecnológico”), em que a estrutura educativa e escolar está de tal modo verticalizada e a cadeia de transmissão de informação tão extensa e difusa que os fenómenos de entropia marcam o quotidiano, abrindo caminho a uma opacidade nada favorável a ambientes construtivos e colaborativos.
Eu, professora por opção e vocação, confesso colocar em causa o meu papel na escola de hoje. Por temperamento e circunstâncias diversas, sempre tive uma postura discreta (excessivamente, segundo alguns), sempre me bastou o carácter sedutor e gratificante de cada aula, de cada encontro pedagógico com os meus alunos. Quando o mérito era reconhecido por pares e por superiores hierárquicos melhor, mas nunca foi (nem é) essa a preocupação da minha vida profissional. Hoje, as circunstâncias do encontro pedagógico estão tão condicionadas e são, por vezes, tão violentas, que dificilmente se consegue fruir o momento, se consegue encantar e ser encantado. Quanto ao reconhecimento do mérito por terceiros, o clima que se está a instalar na(s) escola(s) leva-me a recear que não só tenha menos probabilidade de acontecer como, pior ainda, possa vir a ser considerado mérito a subserviência.
Eu, professora, confesso saber ler, interpretar, detectar incongruências… pensar. Confesso saber (no sentido, também, de ‘estar convencida’) que o ensino-aprendizagem para qualquer ser humano (aluno, professor…) tem de ser faseado e tem de fazer sentido, sob pena de não ocorrer verdadeira aprendizagem. Assim, ninguém vive dignamente a sua profissão numa cadência desenfreada de alterações profundas, num sistema top-down e em cascata, com a agravante das incongruências se sucederem ao mesmo ritmo das orientações/determinações superiormente emanadas. Na melhor das hipóteses sobrevive-se à custa de manipulação de dados e de subversão de princípios.
Eu, professora, me confesso (ainda) disposta a lutar para que a escola se paute pela seriedade e dignidade, pelo binómio ensinar-aprender, num contexto de formar e crescer. Ainda acalento o sonho de “ser professora de…”, de ser parte integrante e integrada de uma comunidade que quer construir algo de positivo e que sabe dizer não a farsas!
Eu, professora, me questiono…
- Contribuí para este estado da situação? Espero que não.
- Fui conivente com ele? Talvez em parte, por omissão e desorientação nos primeiros meses do meu “reencontro” (com a escola.
- Posso alterá-lo? Quero acreditar que sim, certa de que só o poderei fazer se não estiver isolada. Afinal, a escola somos nós (também) que a fazemos!
18 de Março de 2008
[1] -Texto escrito no contexto dos avanços e recuos, dos equívocos e das omissões, sobre a aplicação, ainda este ano lectivo, do Novo Estatuto do Aluno. Surge, também, na sequência de um outro, datado de finais de Janeiro, intitulado “Da escola sonhada à escola (re)vivida”
quarta-feira, 19 de março de 2008
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1 comentário:
Olá Helena!
O cenário traçado é muito real. Parece que o preconizado na formação de professores se secundariza face às excessivas solicitações.
Sem dúvida a Escola é o "elo" mais fraco na sociedade que se desenha com o passar do tempo. Ou seja, os problemas emergem e as soluções encontram-se quase sempre na Escola e por consequência nas pessoas que nela trabalham.
Com o passar dos anos os professores, sem formação específica viram-se obrigados a desempenhar papéis diversificados, substituindo aqueles que na sociedade, por falta de resposta institucional e/ou social,deveriam dar resposta às sucessivas atribulações sociais, onde a família se "perdeu". Lamentavelmente, apesar da resposta que a Escola vai dando, tudo é visto como obrigação sem nada dever!
Em tempos fomos considerados os responsáveis pela situação da Escola, esqueceram-se das múltiplas mudanças, tantas quantos os governos, sem dar tempo a que as medidas implementadas tivessem efeitos práticos, fossem deviamente avaliadas e eventualmente acertadas, redireccionadas, ... .
A Escola foi "avançando" para um Hoje preocupante mediante as atribuladas mudanças, bem como a instabilidade que teima em não parar. São vários os anos de sobressalto, com acções em várias direcções, mais parecendo um boom cujas ondas de choque parecem não parar/passar.
Sem dúvida tornámo-nos um alvo fácil, da vontade/acção político -social, uma profissão cada vez mais em risco, onde horários de trabalho se tornaram pesados e desconexos face à profissão que abraçamos e na qual sem dúvida deve imperar alguma serenidade, no sentido de propiciar a reflexão necessária à intervenção em domínios muito diversificados que não só a sala de aula.
O tempo de introdução/aplicação da avaliação que se pretende realizar ao desempenho docente bem como do novo estatuto do aluno,trouxe a toda a dinâmica escolar mais agitação, colidindo tempos e confundindo dinâmicas.
Acho curioso que, parafraseando um alguém que não lembro o nome, "estranho o facto de muitos professores desejarem ser mais velhos para se livrarem deste pesadelo."
Continuo a pensar que o investimento tem de ser feito na Família. A responsabilização passa obrigatoriamente por exigir à Família o seu envolvimento na educação dos seus educandos, pois como trabalhar quando:
- faltam os manuais escolares, os materiais didácticos básicos de escrita para trabalhar nas aulas, mesmo em situação avaliativa;
- incumprem sucessivamente com tarefas para casa, mesmo que sejam um simples assinar de comunicados entre Escola-Casa;
- persistem em chegar atrasados às aulas, interrompendo sucessivamente as mesmas;
- persistem em posturas perturbadoras, atribulando o processo ensino-aprendizagem, atrasando os trabalhos e dificultando o normal desenvolvimento do currículo.
A tudo isto temos de dar resposta!
Sem dúvida o Professor é generoso, pois tendo como base o Aluno, tudo vai fazendo, chegando mesmo a disponibilzar o seu material e a encontrar as soluções para que o trabalho não pare.
Gostaria de terminar revelando a minha realidade profissional (apesar de ter a certeza de existirem contextos ainda mais complexos)adivinhando-se que o tempo não sobeja (pese embora muitos considerem que nada se faz). Lecciono três níveis de escolaridade, tenho sete turmas (aproximadamente 180 alunos), sou director de turma, coordenador de departamento (com 12 professores)e apenas em Fevereiro deixei de colaborar em dois grupos de trabalho num clube da escola.
Realmente, como aguentar toda esta dinâmica? Mais uma vez com muito extra-horário! Sou mais um que em muito suprime tempo à família e ao seu equílibrio pessoal!
Finalizando este comentário que já vai longo, se na realidade a Helena se confessa ... eu aproveito e faço um desabafo!
Cumprimentos!
José Carlos Costa
(Professor Titular)
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